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Escapismo Positivo: Como Encontrar Seu Refúgio Em Meio a Rotina

Segundo a Wikipédia, escapismo “é o desvio mental ou físico da realidade para evitar o estresse, o tédio ou os aspectos desagradáveis do cotidiano”. Em minhas pesquisas para este artigo, deparei-me com diversos estudos abordando formas de escapismo como o uso do celular, o consumo de álcool e — acredite se quiser — mencionando até a corrida como um “vício” e uma fuga da realidade.

Acho impressionante o quanto a sociedade capitalista se esforça para que o ser humano se reduza apenas ao que faz no trabalho, ao seu “papel social”, ao que consome ou a onde vai. Fiquei surpreso com as inferências negativas acerca do termo, pois, quando me veio à mente falar de escapismo, pensei em uma série de situações positivas. Talvez isso, por si só, já seja escapismo.

Como bem evidenciou Byung-Chul Han em seu livro Sociedade do Cansaço, a modernidade vem, sutilmente, restringindo os momentos de contemplação do indivíduo. Para diferenciar minha abordagem neste artigo das visões negativas com as quais me deparei por aí, a partir de agora irei me referir à minha visão como “escapismo positivo” — que, ao meu ver, é muito mais do que uma fuga; é um mergulho profundo na gratidão e no agora.

Muitas vezes, associamos a palavra “escapar” a um feito grandioso, como viajar de férias, isolar-se em uma fazenda no interior ou até mesmo abandonar tudo em busca de sentido. Mas e se a fuga mais significativa não exigir que você saia do seu próprio código postal?

Ao longo da nossa vida, somos condicionados a buscar o extraordinário longe de casa. No entanto, quando refinamos nosso olhar, percebemos que os momentos especiais residem no cotidiano. O escapismo saudável não nos afasta da realidade, mas nos devolve a ela com as baterias recarregadas, transformando ações mundanas em uma profunda jornada interior.

Redescobrindo Fragmentos de Privilégios Ocultos na Rotina

Pense, por um momento, no seu chuveiro. Em um dia frio de inverno, você entra no banheiro, gira o registro e, quase magicamente, uma cascata de água quente e límpida escorre sobre suas costas. Se fôssemos nômades vivendo na natureza há alguns séculos, encontrar uma fonte termal de água quente em pleno inverno seria quase um milagre divino — um privilégio raro.

Hoje, temos essa “fonte termal” a poucos passos da nossa cama, mas muitas vezes tomamos banho pensando nos boletos, nas planilhas e nos prazos. Quando praticamos o escapismo positivo, transformamos esse banho rotineiro em um ato consciente de gratidão e autocuidado. Você já olhou para o seu chuveiro como se ele fosse a sua pequena cachoeira particular? Tente fazer isso!

Essa mesma lógica pode ser aplicada a uma caminhada, corrida e até mesmo ao ciclismo virtual.

A Conexão com a Natureza (Mesmo Dentro de Casa)

Mesmo nos dias em que o clima não colabora, a mente pode viajar. Imagine um dia chuvoso e cinzento. Você não pode sair para correr ou pedalar na rua, mas sobe no seu rolo de treinamento indoor, coloca seus fones de ouvido, liga um simulador de ciclismo virtual como o Fulgaz e desbrava uma trilha em algum lugar do mundo, fazendo tanto esforço como se realmente estivesse lá. Diferente de assistir a um filme sentado no sofá, aqui o cérebro não é apenas enganado pela imagem, mas conectado à realidade simulada, porque o esforço físico valida o que os seus olhos estão vendo.

O entusiasmo, o foco e a capacidade de criar um santuário mental em qualquer lugar são o segredo para encontrar paz nas pequenas coisas.

Como Praticar o Escapismo no Dia a Dia

Mas espere aí: isso é realmente para você? Questiono isso porque já vi pessoas que funcionam de uma forma totalmente diferente da minha. Elas simplesmente não conseguiam ficar consigo mesmas; buscavam sempre agitação e companhia fora de casa e desejavam trocar escalas de trabalho 5×2 por uma escala 6×1, mesmo sem receber um centavo a mais por isso.

Eu ouvia esses relatos perplexo e chegava a sorrir achando que estavam debochando de mim, enquanto eu ficava completamente revoltado com essa possibilidade. Mas não era deboche; elas realmente funcionavam assim. Conheci uma mulher que alugava um quarto em seu apartamento para estudantes, mesmo estando prestes a se casar. Sua casa estava sempre repleta de gente, a ponto de não haver assentos suficientes, e, se não houvesse ninguém em sua casa nos finais de semana, ela não parava lá, pois parecia realmente precisar dessa movimentação.

Sem querer julgar (mas talvez já julgando), quando você decide se casar com alguém, está buscando estabelecer uma vida privada com o seu par. Tanto é que, nas mais diversas civilizações, o casamento é visto como um contrato. Então, qual é o sentido de trazer uma terceira pessoa completamente desconhecida para um dos poucos lugares do mundo onde você terá — ou deveria ter — privacidade?

Se você precisa de contato com pessoas o tempo todo e simplesmente não consegue estar sozinho, talvez este artigo não seja mesmo para você. Afinal, existem pessoas que, assim como eu, necessitam da quietude e precisam de um tempo reservado para si. Apreciam a privacidade e a contemplação, e não acreditam que se resumem ao papel que exercem na sociedade. Por essa razão, necessitam e valorizam um tempo para se conectar com o seu próprio eu e sua própria essência — o que, diga-se de passagem, é algo cada vez mais difícil de fazer diante da infinidade de estímulos minuciosamente escolhidos por algoritmos para prender nossa atenção.

É preciso estar atento para não se deixar levar pela correnteza, que nos empurra para aqui e para ali, conduzindo-nos a lugares que jamais iríamos por vontade própria.

Algumas pessoas vivem como se estivesse em um barco à deriva, mesmo com os remos ao alcance das mãos.

Veja só que interessante: para tratarmos da liberdade de escapar, também é preciso assumir o controle…

Se você deseja incorporar o escapismo positivo em sua vida, precisa ter uma rotina bem estabelecida, definindo o papel de cada coisa: o que é trabalho, o que são obrigações acessórias, o que é lazer e quem é você no meio de tudo isso.

Esperançoso de que você já possua suas próprias respostas, exponho aqui algumas formas simples, porém poderosas, de transformar seus momentos longe das obrigações em um verdadeiro refúgio:

  1. A ritualização do banho: Como mencionei no exemplo acima, tratar o banho como uma terapia é uma ótima maneira de “virar a chave”, já que a experiência é repleta de estímulos e simbolismos. Deixe a água levar os males, e as preocupações com compromissos. O banho é o seu momento de autocuidado. Basta você perceber o que ele representa. Experimente isso, sinta isso!
  2. A microaventura em um dia de folga: Não espere pelas férias anuais ou por momentos especiais em um futuro distante. Faça uma caminhada no calçadão, no parque do bairro ou uma pedalada até uma área rural próxima. Seja uma grande viagem ou uma microaventura de fim de semana, ambas lhe proporcionarão exposição ao sol, vento no rosto e contato com a natureza. Você precisa disso, e o seu corpo sabe e necessita disso. Nas microaventuras, você gera o que chamo de “cansaço satisfatório”, ganhando motivação, condicionamento físico e boas lembranças.
  3. Desconexão intencional: Deixe o celular em outro cômodo por um tempo. Permita-se ler um livro, meditar, ouvir um disco inteiro ou simplesmente observar a rua pela janela. Como em uma desintoxicação, você precisa provar a si mesmo e ao mundo que pode sobreviver sem os hábitos que, de forma explícita ou velada, estão drenando sua energia. Você é capaz de fazer isso? Capaz de dizer não a urgências que nunca foram suas, como as notificações das redes sociais que dizem: “Ei… estou comendo um prato de macarronada, vem cá me ver!”

O Destino Final É Você Mesmo

Não há nada de errado em sonhar com viagens exóticas e destinos paradisíacos. Mas depender exclusivamente dessas fugas anuais para ser feliz é um peso muito grande para carregar nos outros trezentos e tantos dias do ano.

Se de alguma forma você não está satisfeito com a sua rotina, antes de fazer uma transformação radical, tente perceber os “privilégios ocultos” que existem nela. Mesmo que a sua vida realmente precise de ajustes, começar pela gratidão trará uma atitude mental positiva e a habilidade de reconhecer o que é bom — por mais simples que seja, como a cachoeirinha de água morna particular no seu banheiro.

Os bons momentos e as sensações satisfatórias que você procura sempre estiveram ao seu alcance, mas, na sua mente, estavam disfarçados de banalidades. A vida acontece no agora e o único momento disponível é já! Sua “escapadinha” da rotina estressante não exige rios de dinheiro ou um carimbo no passaporte.

Quando aprendemos a dominar o escapismo positivo, descobrimos que o refúgio mais seguro, duradouro e acessível do mundo sempre esteve conosco: a nossa própria presença e uma mente bem guiada, capaz de encontrar paz nas pequenas coisas, em qualquer lugar e a qualquer momento.

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