Correndo em uma manhã fria de sábado no cerrado
O relógio marcava 5h30 de um sábado, e o mundo lá fora era um convite ao cobertor. As janelas de minha casa sussurravam promessas de um amanhecer cinzento, embalado por um vento frio e constante que — eu sabia — varria as paisagens do cerrado. Não havia chuva, apenas uma gélida neblina. Eu poderia ter renunciado ao desafio pelo aconchego da cama, por um café quente na varanda, mas algo mais profundo, algo que reside na essência de quem corre, praticamente me puxava para fora. Há uma força quase primal que nos impulsiona a buscar o desconforto aparente, a transcender a barreira da conveniência para encontrar uma recompensa que o mundo lá dentro jamais poderia oferecer.
Decidido a sair de casa apenas com uma fina camisa de manga longa, uma bermuda e luvas de frio, interiorizei a ideia de que esta seria uma corrida para me fortalecer mentalmente. Em dias como este, sair para correr demonstra mais do que força física — é uma teimosia da alma, um diálogo silencioso com a própria vontade. As ruas da cidade ainda dormiam, os cães não latiam, e eu já sentia o ar cortante da manhã tocando meu rosto — uma sensação que, para muitos, seria um suplício, mas para mim, era o prelúdio de uma experiência quase mística.
Segui caminhando até a fronteira imaginária que, ao menos para mim, divide o mundo das aparências de um ambiente verdadeiro e repleto de significado. O cerrado, com sua vegetação retorcida e resiliente, parecia conspirar com o vento, transformando-se em um labirinto verde-acinzentado. As árvores se curvavam; alguns galhos sucumbiam, enquanto outros dançavam um balé frenético com o vento. O som do vento batendo na folhagem era uma melodia singela, um rugido constante que abafava qualquer pensamento trivial. Era como se a natureza estivesse em seu próprio treino de força — e eu, um mero espectador, testemunhava sua grandiosidade.
A trilha de terra batida, levemente umedecida, se estendia à minha frente — convidativa e, ao mesmo tempo, impiedosa. Nos primeiros quilômetros, o vento soprava incansavelmente contra mim. Era um esforço redobrado a cada passada, como se eu corresse em um túnel de ar denso. Meus pulmões ardiam, as pernas pesavam, e a autossugestão de abrandar, de ceder ao ímpeto do corpo que pedia trégua, era tentadora. Contudo, em meio a essa batalha silenciosa, recobrei a clareza: não estava ali para quebrar recordes ou competir contra o cronômetro. Estava ali para sentir — para viver a corrida em sua forma mais pura. Essa clareza, como um bálsamo, aplacou a resistência interna. Eu não precisava ir rápido. Eu precisava ir!
O silêncio das trilhas, que em um sábado normal seria preenchido por outros corredores, ciclistas e caminhantes, era quebrado apenas pelo uivo do vento. As condições hostis, que afastaram a maioria, me concederam um privilégio raro: o cerrado era só meu. Eu era o único protagonista em um palco grandioso. A solidão, que para alguns seria mais um fardo, tornou-se uma aliada, permitindo que pensamentos triviais sumissem com o vento, transformando a corrida em uma meditação. O movimento fluía sem interrupção, as inquietações mentais se dissolviam no ar. Era um transe — quase como uma dança silenciosa em que meus pés mal tocavam o chão.
A cada quilômetro superado, a cada rajada de vento vencida, a sensação de superação crescia. Os galhos que antes pareciam resistir à minha passagem agora pareciam dançar em celebração. O ar frio, que no início parecia um inimigo, tornou-se um revigorante abraço. O corpo, em sua sabedoria inata, se ajustou ao esforço e me conectou à minha essência mais selvagem…
E ao final de 16 quilômetros, o sol começava a espreitar por entre as nuvens — como um convite de retorno à realidade. Minhas pernas estavam cansadas, mas não doloridas; meu corpo, aquecido de dentro para fora, exalava vapor no ar frio. A sensação de contentamento era profunda — uma paz que só se alcança quando se enfrenta e se supera um desafio pessoal. Era como se aquela corrida tivesse lavado qualquer inquietação mental que eu pudesse, mesmo que de forma inconsciente, ter levado comigo. São nesses momentos que percebo que correr não é apenas sobre movimentar o corpo, mas também sobre alimentar a alma. Pois correr nos reconecta a algo maior, algo que transcende o tempo e as civilizações.
Sair para correr em um sábado frio e ventoso no cerrado não foi apenas um treino físico — foi uma reafirmação. Uma reafirmação de que a minha maior motivação na corrida reside na pura e simples alegria de se mover, de se sentir vivo, de dançar com a natureza, mesmo quando ela me desafia com uma pequena demonstração de sua força mais bruta. E, ao voltar para a realidade do mundo das aparências, o sorriso em meu rosto era a prova irrefutável de que aquelas experiências quase místicas em meio à natureza são reais — e deixam rastros, pois fazem a alma transbordar.


