100 km no MyWhoosh: Um Desafio Virtual, Realmente Real
O ciclismo virtual é uma alternativa realmente muito interessante. Mesmo sem sair do lugar, você pode se propor a desafios grandes — e este foi o meu caso em uma tarde de sábado especialmente chuvosa, ao encarar a rota Arabian Knights, no MyWhoosh.
Esta rota tem ao todo 100 km e, se já não bastasse a longa distância, ainda conta com duas montanhas pesadas: uma de 10,4 km e outra, no final, com 16 km de extensão.
Se você ainda se pergunta como é possível sentir a dificuldade de uma montanha no ciclismo virtual, a resposta é simples: nos chamados rolos smart, o pedal simplesmente fica mais pesado.
Já nas bicicletas ergométricas conectadas — que é o meu caso, com a minha Gallant Connect Max —, você precisa aumentar o peso da roda magnética no seletor de carga. Assim como na vida real, é possível escalar em marcha leve, mas você pedalaria sem quase sair do lugar. Isso tornaria muito mais demorada a conclusão do percurso, se comparado a realmente fazer força.
Preparativos antes do desafio
Antes de encarar o desafio, fiz uma boa refeição à base de macarrão, batatas e frango. Montei meu setup, deixei uma toalha, uma caramanhola com água e outra com isotônico. Fones de ouvido carregados e uma playlist em sua maioria com o estilo vaporwave pronta para gerar a vibe.
Eu estava pronto!
Mas havia uma certa insegurança no ar — eu sabia que não estava no meu melhor momento físico. Meu cronograma de treinos tinha mais buracos do que eu gostaria de admitir.
Mesmo assim, me propus ao desafio justamente por não estar preparado. Queria uma virada de chave, um choque de motivação. Queria me entorpecer com endorfina e dopamina, realizando pela primeira vez um pedal com distância na casa dos três dígitos.
E por mais que houvesse dúvida, também havia uma convicção inabalável:
Levasse o tempo que fosse, eu iria finalizar!
Primeira montanha: Jabel Hafeet

Depois de 9,4 km tranquilos, me deparei com o primeiro segmento de montanha: Jabel Hafeet.
Esta montanha se estende por 10,4 km, com média de 6,6% de inclinação, podendo chegar a 14% em alguns trechos. A elevação total é de 687 metros.
Logo nas primeiras pedaladas, é preciso se ajustar: cadência, potência e ritmo cardíaco mudam de imediato. Você sente o “baque” da montanha e precisa resistir — e, mais do que isso, manter uma atitude mental positiva.
Entre curvas, trechos íngremes e pequenos alívios, o ritmo vai se adaptando. Em certos pontos, você até ganha velocidade naturalmente, mas é preciso dosar o esforço. Eu me poupava, ajustando o nível do seletor de carga conforme o relevo variava.
Sem ter estudado o percurso a fundo, apenas resisti — até perceber o topo se aproximando.
Chegar ao topo de uma montanha é sempre marcante, e isso também vale pro virtual. A sensação de conquista é muito real. E a equipe do MyWhoosh capricha nos visuais: cada montanha tem um cenário diferente, uma pequena recompensa visual para quem consegue chegar lá.
Descendo e se reabastecendo
Na descida, intercalei entre pedalar e não pedalar para reduzir a frequência cardíaca, reidratei-me e consumi carboidratos.
Logo cheguei ao trecho plano e fiz uma breve pausa para ir ao banheiro e reabastecer a caramanhola.
De volta à estrada virtual, mantive uma média de pouco mais de 30 km/h no plano. Para comparar: nas subidas, essa média ficava entre 6 e 8 km/h. Era preciso ter cabeça nas montanhas — e cautela no plano. Pois eu sabia que outra montanha me aguardava 44 km adiante.
Brasileiros na rota
Durante esses longos quilômetros rumo a ultima montanha, percebi que haviam mais dois brasileiros fazendo a mesma rota. Um me ultrapassou ainda no plano, mantendo uma velocidade alta. O outro, ainda que um pouco mais distante também vinha tirando tempo em relação a mim.
O tempo foi passando e os quilômetros também, e quando percebi… lá estava Oasis Peak.
A última montanha: Oasis Peak

Oasis Peak possui 16,5 km, com média de 5,3% de inclinação, podendo chegar a 8% em alguns trechos e a elevação total é de 877 metros.
O cansaço era evidente. As reservas de glicogênio estavam se esgotando. Dei um último gole no isotônico, comi uma banana e… lá fui eu.
16 km montanha acima.
Previsão: duas horas até o topo. Eu já pedalava há cerca de 3 horas e meia o que a esta altura já deveria ser um recorde para mim. E a partir dali, o desafio era mental.
Alguns minutos depois, o outro brasileiro me ultrapassou, subindo com o dobro da minha velocidade. Na lista de ciclistas, via os dois compatriotas duelando virtualmente. Os watts/kg deles batiam 4,5 e até 5; os meus, 3,8 no máximo.
Depois de um tempo, notei o primeiro diminuindo o ritmo… e simplesmente sumindo da lista. O outro também foi diminuindo. E cerca de uns 6 minutos depois eu me deparo com ele parado logo a minha frente e depois de ultrapassa-lo, passados mais alguns minutos ele também sumiu da lista.
Por que pararam? Esta resposta obviamente não tenho, mas na minha opinião, ninguém vai tão longe em uma rota como esta para desistir antes de conclui-la, a não ser que esteja verdadeiramente exausto. É uma rota difícil e se eu desistisse no meio do caminho, possivelmente eu nunca mais iria querer retornar lá. De um universo com mais de 7 mil ciclistas virtuais, até aquele momento, apenas 196 haviam concluído a rota Arabian Knights. Chegar na ultima montanha e simplesmente parar a sessão por parar não me parece mesmo uma opção, mas sim uma necessidade.
O fim da montanha, o início da conquista
Agora eram apenas eu e minha teimosia. Continuei pedalando, com breves pausas para reabastecer água, banana e pedaços de mandioca cozida.
De repente, o mapa de inclinação já não mostrava uma reta interminável para cima.
A montanha tinha um fim.
E eu estava quase lá.
Com resiliência e pouco mais de duas horas de subida, cheguei ao topo.
A descida veio e com ela a emoção, o alívio e o doce sabor da vitória.
O pior já havia ficado para trás.
A descida de 16 km era apenas um passeio leve com gosto de conquista. Continuei pedalando até cruzar a linha final — em 5h41min02s.
Fui o 197º ciclista a concluir a rota Arabian Knights desde que ela foi criada.
A alegria de terminar o que começamos
A sensação de concluir um grande desafio é indescritível. Posso afirmar que essa experiência virtual me trouxe as mesmas sensações de quando encaro longas distâncias correndo em meio a ambientes naturais e estradas bucólicas.
Venho fazendo desafios assim desde uma época em que GPS não era algo tão popular assim entre esportistas, eu saia por ai sem ter a certeza de que, lá no horizonte, existiria mesmo uma estrada por onde eu pudesse retornar.
Desafios assim aguçam o espírito, nos tornam mais fortes e se transformam em memórias que ficam gravadas na memoria para sempre — tenham estas sido vividas no mundo real ou virtual.


